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Possessor e o horror de descobrir que alguém está dirigindo seu corpo por dentro

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Possessor filme
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Você mexeu a mão. Só faltou sentir que foi você

A mão fecha.

Os dedos obedecem.

O braço levanta.

Você olha para tudo funcionando exatamente como deveria e, por um segundo miserável, existe um pequeno atraso entre o movimento e o reconhecimento.

Foi você que fez isso?

Não parece.

O corpo continua ali. Inteiro. Competente. Operacional. Nenhuma peça caiu no chão. Nenhum alarme tocou. Só apareceu aquela sensação muito discreta de que talvez alguém tenha chegado primeiro.

Possessor constrói seu horror dentro desse atraso.

O filme de 2020, escrito e dirigido por Brandon Cronenberg, acompanha Tasya Vos, vivida por Andrea Riseborough, uma assassina que trabalha para uma organização capaz de implantar sua consciência no corpo de outras pessoas. Ela ocupa esses corpos, executa alvos e depois precisa voltar para o próprio. O Rotten Tomatoes classifica Possessor: Uncut entre ficção científica, horror e thriller, com 94% de aprovação da crítica. Consultar Possessor: Uncut no Rotten Tomatoes

Bonito.

Home office finalmente encontrou uma maneira de ficar pior.

Só que a tecnologia é quase a parte menos perturbadora.

Porque entrar em outro corpo é uma ideia de ficção científica.

Voltar para o seu e precisar lembrar como ser você é uma ideia muito mais próxima.

O corpo continua trabalhando mesmo quando você vai embora

Tasya não veste simplesmente outra pessoa.

Ela ocupa.

Usa uma voz que não é dela. Move músculos que não são dela. Entra em relações que não são dela. Caminha por uma vida já em andamento e precisa parecer convincente o suficiente para que ninguém perceba que existe uma passageira segurando o volante.

No trabalho dela, identidade é inconveniência operacional.

Você não precisa gostar do corpo.

Precisa fazê-lo funcionar.

É aí que Possessor começa a ficar sufocante.

Quanto mais eficiente Tasya se torna usando outras pessoas, menos confortável parece dentro da própria existência.

Brandon Cronenberg contou que parte da ideia do filme nasceu durante a divulgação de Antiviral, quando percebeu a estranheza de construir uma versão pública de si mesmo para funcionar naquele ambiente. Ele descreveu a sensação de acordar e precisar reconstruir um personagem capaz de operar dentro daquela vida. A partir disso surgiu sua vontade de falar sobre alguém que talvez fosse uma espécie de impostor na própria existência. Ler a entrevista de Brandon Cronenberg sobre Possessor

E isso muda tudo.

Porque agora não estamos mais falando apenas de uma mulher conectada a uma máquina.

Estamos falando de performance.

Da versão profissional.

Da versão familiar.

Da versão funcional.

Daquela pessoa extremamente competente que responde mensagens, participa da reunião, dá bom-dia, volta para casa e talvez precise de alguns segundos na porta antes de lembrar qual personagem entra ali.

Se isso parece menos futurista do que deveria, meus parabéns. O expediente venceu.

Tem emprego que pede dedicação. Esse pede despejo

Existe uma coisa bastante perversa na profissão de Tasya: quanto melhor ela trabalha, mais precisa desaparecer.

Eficiência significa reduzir ruído.

E Tasya é o ruído.

Seu corpo, suas relações, sua história, seus vínculos e tudo aquilo que normalmente usamos para montar a palavra “eu” atrapalham uma função que exige disponibilidade total para ser outra pessoa.

O trabalho não pede apenas tempo.

Pede espaço interno.

Pede que ela saia para alguém entrar.

Tem empresa que oferece café, plano odontológico e uma cultura organizacional ligeiramente passivo-agressiva.

A de Tasya oferece despersonalização com tecnologia proprietária.

Mas existe algo reconhecível escondido nessa monstruosidade.

A ideia de que ser profissional significa aprender a amputar partes de si conforme o ambiente exige.

Não leva seus problemas para o trabalho.

Não demonstra fraqueza.

Não reage.

Não sente agora.

Executa.

Resolve.

Entrega.

Depois você volta a ser você.

Se lembrar como.

Essa é uma ferida que o Terror Chiclete já encontrou em outros lugares. Na nossa seleção de filmes para quem não quer susto, quer dano emocional, Perfect Blue aparece justamente pelo horror de uma identidade consumida por uma versão pública que começa a exigir espaço demais. 7 filmes para quem não quer susto, quer dano emocional

Muda a máquina.

A pergunta continua desagradavelmente parecida:

quantas versões suas podem trabalhar em período integral antes que a original peça demissão?

Depois de morar em tanta gente, onde exatamente você mora?

O BFI descreve Possessor como um body horror visualmente agressivo e chama atenção justamente para o conflito entre Tasya e Colin, personagem de Christopher Abbott, quando a divisão entre quem controla e quem resiste começa a deteriorar a fronteira entre os dois. Ler a análise de Possessor na Sight and Sound / BFI

E “fronteira” é uma palavra importante aqui.

A gente gosta de pensar identidade como alguma coisa sólida.

Existe o corpo.

Dentro dele existe você.

Contrato simples. Endereço fixo.

Possessor olha para isso como um corretor particularmente desonesto e pergunta se você tem certeza de que esse imóvel ainda é seu.

Porque o corpo de Colin não fica vazio esperando Tasya.

Existe alguém ali.

Uma vontade.

Memórias.

Desejos.

Reações.

Ocupante anterior com zero interesse em entregar as chaves.

De repente, o controle deixa de parecer botão.

Vira disputa territorial.

E o mais estranho é que essa disputa começa a contaminar também quem supostamente entrou em vantagem.

Tasya invade outra pessoa, mas carrega coisas de volta.

Um corpo atravessa o outro.

Uma personalidade começa a borrar a borda da outra.

O rosto vira endereço compartilhado.

É uma ideia que conversa diretamente com outro tipo de possessão que já apareceu no Terror Chiclete. Em A Mão, jovens abrem voluntariamente espaço para presenças alheias porque querem conexão, prazer e contato com quem já se foi. A Mão promete reconexão. Entrega possessão. E a gente pede bis.

Em Possessor, o motivo é diferente.

Não existe brincadeira.

Existe produtividade.

E talvez isso seja pior.

Porque aqui entregar o próprio corpo não é tentação sobrenatural.

É procedimento.

A pior parte é quando ninguém precisa mais mandar

Controle costuma ser fácil de identificar quando tem alguém gritando.

Uma ordem.

Uma porta trancada.

Uma ameaça.

Uma pessoa dizendo exatamente aquilo que você pode ou não pode fazer.

Mas esse é o controle amador.

O profissional é mais silencioso.

Funciona melhor quando a ordem já foi instalada.

Quando ninguém precisa dizer “faça isso” porque você aprendeu a antecipar.

Quando ninguém precisa pedir produtividade porque descansar já produz culpa.

Quando ninguém precisa mandar você interpretar determinado papel porque decepcionar as pessoas parece mais assustador do que continuar interpretando.

Quando ninguém precisa segurar o volante.

Você dirige para onde esperam sozinho.

Possessor leva essa lógica até a carne.

O BFI destaca justamente como o filme trabalha controle corporal e vigilância dentro de sua ficção científica. Colin, antes mesmo da invasão de Tasya, trabalha observando secretamente consumidores para transformar seus comportamentos em dados comercialmente úteis. Análise do BFI sobre Possessor e controle corporal

Isso não parece acidente.

Todo mundo observa alguém.

Todo mundo serve alguém.

Todo mundo parece ser utilizado por uma estrutura acima.

A empresa usa Tasya.

Tasya usa corpos.

Outras empresas usam Colin.

Colin observa desconhecidos.

Os desconhecidos provavelmente acreditam estar apenas vivendo normalmente.

É uma cadeia alimentar em que autonomia parece estar sempre dois cargos acima no organograma.

E aqui o filme deixa uma pergunta bem pior do que “quem controla esse corpo?”.

Quem ensinou essa pessoa a aceitar ser controlada?

Seu corpo também pode receber expectativas como invasoras

Nem toda ocupação precisa de implante neural.

Às vezes chega mais cedo.

“Você deveria querer isso.”

“Você deveria ser assim.”

“Essa é a vida certa.”

“Isso vai fazer você feliz.”

Repete o suficiente e uma ordem começa a parecer personalidade.

É por isso que Huesera conversa tão bem com essa ferida. Na nossa seleção sobre trauma familiar, o filme aparece justamente pelo modo como maternidade, corpo e identidade se confundem com a expectativa de viver uma vida que talvez tenha sido escolhida antes pela personagem. 7 filmes de terror para quem herdou mais trauma do que patrimônio

Possessor empurra a mesma angústia para um extremo tecnológico.

Quem colocou essa vontade aí?

Você?

Sua família?

Seu emprego?

Sua necessidade de ser aprovado?

A pessoa que você ama?

A versão de você que aprendeu a funcionar porque funcionar parecia mais seguro do que perguntar?

Não precisa existir máquina nenhuma para que essa pergunta fique desagradável.

Infelizmente.

Se o controle já entrou na sua cabeça, tente esses também

Se Possessor acertou justamente nessa mistura de corpo, autonomia e identidade, outras sessões podem continuar estragando sua noite com bastante eficiência.

O Homem Invisível transforma controle abusivo em presença permanente: escapar fisicamente de alguém não significa imediatamente deixar de viver segundo o medo que aquela pessoa instalou.

Corra! transforma o próprio corpo em propriedade disputada e faz da perda de autonomia uma das imagens mais cruéis do terror contemporâneo.

Cisne Negro pega perfeccionismo, disciplina e identidade e aperta tudo até o corpo começar a parecer o recibo de uma cobrança impossível.

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite prefere uma estratégia mais simpática: oferece pertencimento antes de começar a cobrar identidade como taxa de associação.

E A Mão troca o controle corporativo pelo luto, mas mantém a pergunta central: quanto espaço você pode entregar para alguma coisa antes de perceber que não sabe mais como expulsá-la?

Uma coleção muito saudável de entretenimento.

Talvez você ainda esteja aí dentro

Existe um conforto estranho em imaginar controle como alguma coisa que outra pessoa faz conosco.

Porque, nesse cenário, basta encontrar o controlador.

Cortar contato.

Sair da empresa.

Terminar o relacionamento.

Quebrar a máquina.

Fechar a porta.

Fim.

Possessor não oferece essa gentileza.

A parte que realmente incomoda é perceber que Tasya não funciona apenas como alguém submetida a um sistema. Existe nela alguma coisa que já aprendeu a operar dentro daquela lógica.

Isso é muito pior.

Porque controle internalizado não precisa perseguir você.

Ele viaja junto.

Talvez seja por isso que o filme tenha recebido uma resposta crítica tão forte. O Rotten Tomatoes registra 94% de aprovação entre 226 críticas, enquanto o BFI incluiu o longa entre seus destaques de 2020 e chamou atenção para sua mistura de biohacking, paranoia e turbulência psicológica.

A tecnologia de Possessor provavelmente não está chegando amanhã.

Ótimo.

Podemos cancelar o pânico por algumas horas.

A pergunta que Brandon Cronenberg colocou dentro dela, infelizmente, já chegou faz tempo.

Você acorda.

Levanta.

Trabalha.

Responde.

Entrega.

Sorri quando precisa.

Fala do jeito certo.

Performar versões diferentes de nós mesmos faz parte de existir. O problema começa quando uma dessas versões aprende a funcionar tão bem que a pessoa original passa a parecer inconveniente.

Então sobra aquele pequeno atraso.

A mão mexe.

A boca responde.

O corpo continua cumprindo tudo.

E você demora um segundo para reconhecer quem deu a ordem.

Qual filme de terror já fez você pensar que perder o controle da própria cabeça seria pior do que enfrentar qualquer monstro?

Porque talvez o pior não seja alguém assumir o controle.

Talvez seja descobrir quanto tempo você consegue continuar funcionando depois que já não sabe quem está dirigindo.

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