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A Morte do Demônio: A Ascensão: algumas irmãs dividem segredos. Outras dividem ressentimento

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A morte do demônio
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Tem coisa que você só admite quando ninguém está ouvindo

Existe uma frase que provavelmente nunca vai aparecer bordada numa almofada de sala: eu amo você, mas às vezes gostaria que sua vida fosse um pouco pior. Não miserável. Calma.

Ainda estamos tentando manter alguma dignidade por aqui. Só um pouquinho menos organizada, menos livre, menos interessante.

O suficiente para que, olhando para você, a minha própria existência não parecesse ter chegado atrasada na distribuição de oportunidades. É um pensamento feio.

E justamente por isso ele costuma sobreviver muito bem dentro da família, onde todo mundo aprende cedo a esconder as coisas realmente inconvenientes atrás de um “tá tudo bem” dito com os dentes praticamente cerrados.

Quando Beth chega ao apartamento de Ellie em A Morte do Demônio: A Ascensão, ela não encontra apenas a irmã. Encontra outra versão possível da vida adulta.

Ellie tem três filhos, uma separação atravessada na rotina, um apartamento num prédio condenado e aquela aparência muito específica de quem provavelmente já resolveu oito problemas antes do café.

Beth chega carregando as próprias crises, inclusive uma gravidez que não sabe exatamente como encarar, mas chega de fora.

Ela ainda se movimenta entre lugares. Ellie parece ter sido incorporada ao imóvel junto com as paredes, os quartos, as contas e a responsabilidade de manter todo mundo respirando.

É justamente aí que a inveja começa a ficar interessante. Não porque o filme declare que Ellie inveja Beth — não declara — e muito menos porque uma possessão demoníaca possa ser reduzida a “ressentimento entre irmãs”. Isso deixaria tudo arrumadinho demais, e esse apartamento já tem problemas suficientes sem a gente trazer psicologia de guardanapo.

O incômodo está na possibilidade mais humana: duas pessoas podem se amar profundamente e, ainda assim, olhar para os caminhos diferentes que tomaram e imaginar, por alguns segundos vergonhosos, se a outra não ficou com a parte melhor.

E esse tipo de pensamento raramente entra arrombando a porta.

Família costuma dar a chave.

Beth chegou com uma mala. Ellie já estava carregando uma vida inteira

Beth aparece carregando bagagem. Ellie não precisa. A dela está espalhada pela casa.

Está nos filhos. No apartamento. Na ausência do marido. No futuro incerto daquele prédio. No modo como uma pergunta simples rapidamente precisa disputar espaço com outra emergência.

Ellie não é apenas uma mulher cansada, e seria injusto reduzir a personagem à maternidade como se os filhos fossem três bolas de ferro amarradas ao tornozelo.

Existe carinho naquela casa. Existe intimidade. Existe vida. Mas também existe aquilo que o terror familiar entende muito bem: amar as pessoas que dependem de você não faz a responsabilidade pesar menos.

É uma dinâmica que conversa diretamente com outros filmes sobre famílias que herdaram muito mais trauma do que patrimônio. No terror, a família raramente precisa inventar um problema do zero. Ela só pega coisas que já existem — expectativa, culpa, silêncio, ressentimento, obrigação — e aumenta o volume até alguma coisa começar a rastejar pelo teto.

Beth, por outro lado, parece carregar algo que para Ellie pode soar quase luxuoso: movimento. A possibilidade de ir embora.

A impressão de uma vida que ainda não endureceu completamente ao redor dela. Só que Beth também chega procurando ajuda. Também está perdida.

Também está diante de uma decisão que não sabe tomar. Nenhuma das duas é a versão vencedora daquela família. Elas apenas possuem problemas diferentes, e isso é péssimo para a inveja porque inveja não trabalha com prontuário completo.

Ela escolhe uma coisa.

Liberdade.

Família.

Estabilidade.

Coragem.

Silêncio.

E pergunta:

“Por que ela tem isso e eu não?”

Pronto. Já temos material suficiente para estragar o almoço de domingo.

A comparação é uma péssima historiadora

A comparação corta as partes inconvenientes da história antes de apresentar o relatório. Ela olha para alguém viajando e não vê a solidão. Olha para uma mãe cercada pelos filhos e não vê o cansaço. Olha para quem mora sozinho e chama isso de liberdade sem perguntar se naquela noite a pessoa preferia ter alguém por perto.

É praticamente uma editora de Instagram trabalhando dentro do cérebro, só que sem salário, sem folga e com uma dedicação impressionante ao seu colapso.

Isso não é apenas uma maldade inventada pelo Terror Chiclete para piorar sua quinta-feira. Pesquisas sobre comparação social e inveja já encontraram relações entre comparações ascendentes — quando olhamos para quem percebemos como estando “melhor” —, inveja e piora no bem-estar. O cérebro olha para a versão editada da vida alheia e, com a confiança de um especialista que não leu o processo, decide que você claramente perdeu.

Beth e Ellie tornam essa ferida especialmente incômoda porque nenhuma das duas possui exatamente a vida que a outra poderia imaginar olhando de fora. Beth não chega como a irmã livre, linda, plena e pronta para vender curso. Ela está assustada.

Ellie não vive apenas uma prisão doméstica. Ela ama os filhos e existe afeto real naquela casa. A comparação, porém, não precisa que a realidade coopere. Ela só precisa encontrar uma ausência nossa e alguma coisa no outro que pareça preenchê-la.

Invejar alguém que você odeia é quase confortável. Você já montou um departamento inteiro dentro da cabeça para justificar aquilo. “Não gosto dela mesmo.” Caso encerrado.

Agora tente invejar alguém que você ama.

A culpa vem de brinde.

Você quer que sua irmã seja feliz. Claro que quer. Só talvez preferisse que a felicidade dela não iluminasse tão perfeitamente aquilo que está faltando na sua vida.

Você quer que seu amigo consiga aquela promoção. Óbvio. Precisava conseguir justamente na semana em que você percebeu que odeia seu trabalho? Você torce pelo casal apaixonado do feed. Lindo. Maravilhoso. Felicidades. Agora poderiam parar de sorrir naquele restaurante por dois minutos?

Mesquinho?

Sim.

Humano?

Infelizmente também.

a morte do demonio a ascensao

Família sabe exatamente onde enfiar a faca emocional

Lee Cronin mudou a geografia da franquia ao tirar o horror da tradicional cabana e colocá-lo dentro de um apartamento, mas existe uma mudança ainda mais importante: segundo o próprio diretor, A Morte do Demônio: A Ascensão foi concebido como o primeiro filme da série realmente centrado em uma família. Isso muda o tipo de estrago disponível.

Um estranho pode ameaçar seu corpo.

Quem te conhece consegue fazer turismo nas suas inseguranças.

Quando Ellie é possuída, intimidade vira munição. O Deadite não está usando apenas força física. Ele conhece aquelas pessoas. Conhece relações, vulnerabilidades e lugares emocionais onde uma frase pode machucar antes mesmo de qualquer coisa atravessar uma parede.

É uma versão sobrenatural de um mecanismo bastante comum: quem convive com você também recebe, sem querer, o mapa completo das áreas que deveriam permanecer protegidas.

Família possui arquivo.

Sabe quem fugiu. Quem ficou. Quem precisava mais dos pais. Quem aparentemente recebeu mais atenção. Quem sempre foi “o responsável”. Quem podia errar. Quem precisava acertar. Quem saiu da cidade. Quem voltou. Quem tem dinheiro. Quem não tem. Quem deu trabalho. Quem passou décadas sendo elogiado justamente pela característica que você passou décadas tentando desenvolver.

É por isso que A Maldição da Residência Hill gruda por um motivo parecido: casas podem guardar fantasmas, mas famílias são extraordinariamente eficientes em guardar versões conflitantes da mesma história.

Depois alguém pergunta por que certas discussões começam com uma louça na pia e terminam julgando uma decisão tomada em 2008.

O prato nunca teve chance.

Ser necessária o tempo inteiro também pode parecer uma sentença

Existe uma armadilha particularmente cruel em ser indispensável: chega uma hora em que ninguém percebe que você também gostaria de desaparecer por cinco minutos.

Ellie é necessária. Os filhos precisam dela. A rotina precisa dela. Aquela casa parece construída ao redor da certeza de que ela continuará funcionando mesmo quando tudo ao redor estiver falhando. E existe um tipo de ressentimento muito difícil de admitir quando parte da nossa identidade foi construída em torno do cuidado: a fantasia de uma vida onde ninguém esteja pedindo alguma coisa.

Isso não significa não amar.

Talvez seja exatamente essa a parte mais incômoda.

Você pode amar profundamente as pessoas pelas quais é responsável e ainda invejar quem consegue simplesmente sair pela porta. Pode desejar seus filhos e, em uma terça-feira específica às 19h42, desejar também quinze minutos de silêncio absoluto. Pode olhar para uma irmã aparentemente mais livre e sentir uma pontada que não significa “eu queria abandonar minha família”. Às vezes significa apenas: eu queria lembrar quem eu era quando minha existência ainda cabia inteira dentro de mim.

Só que dizer isso continua socialmente mais complicado do que enfrentar uma criatura demoníaca no corredor.

O demônio pelo menos não responde:

“Mas você não queria ter filhos?”

O filme é cruel porque pega justamente a figura que deveria representar proteção dentro da casa e a transforma na ameaça central. A maternidade, que já carrega uma quantidade obscena de expectativa externa, vira terreno de horror. Não porque mães sejam monstruosas, mas porque existe algo profundamente desconfortável em perceber o quanto esperamos que elas sejam emocionalmente inesgotáveis.

E ninguém é.

Nem mesmo antes do Livro dos Mortos aparecer.

O pensamento feio que ninguém coloca no grupo da família

Falando nele: o livro encontrado no prédio não entra apenas como ferramenta de roteiro. Ele pertence a uma longa tradição de objetos do terror que poderiam muito bem vir acompanhados de etiqueta dizendo “NÃO ENCOSTE, NÃO LEIA, NÃO LEVE PARA CASA”. O próprio universo de Evil Dead já aparece na nossa lista de objetos amaldiçoados que deveriam vir com aviso, exorcista e multa.

Mas o pensamento feio que interessa aqui não precisa de livro.

Talvez você nunca tenha desejado exatamente a vida de outra pessoa. Talvez tenha desejado só uma terça-feira dela.

A promoção.

O corpo.

A coragem.

A relação com os pais.

A ausência de filhos.

Os filhos.

A capacidade de ir embora.

A segurança de ter ficado.

A inveja é impressionantemente flexível. A pessoa solteira inveja o casal. O casal inveja a liberdade da pessoa solteira. Quem saiu da cidade sente falta de pertencimento. Quem ficou passa quarenta minutos pesquisando preço de passagem depois de outra reunião familiar. Quem não tem filhos olha para a família alheia e enxerga aconchego. Quem não dorme uma noite inteira desde 2021 olha para o amigo sem filhos acordando às onze no domingo e considera brevemente romper relações.

Todo mundo olhando através de portas diferentes e concluindo que o outro lado provavelmente possui melhor iluminação.

Beth e Ellie funcionam tão bem dentro dessa lógica justamente porque são duas vidas incompletas olhando uma para a outra. Uma vê aquilo que a outra carrega, mas ninguém sente o peso usando o braço de outra pessoa.

Talvez seja essa a parte mais venenosa da inveja:

ela compara resultados visíveis com dores privadas.

Claro que a conta vai dar errada.

Para continuar comparando vidas e tomando decisões péssimas

Se essa ferida ainda não irritou o suficiente, o terror possui outras opções para piorar a situação.

A Substância — porque aparentemente competir com outras mulheres não bastava; agora você também pode declarar guerra contra uma versão mais jovem de si mesma.

Cisne Negro — perfeição é uma meta adorável até começar a ocupar o mesmo quarto que você.

Nós — imagine descobrir que existe outra versão da sua vida e ela está profundamente insatisfeita com a divisão de benefícios.

Pearl — ver outras pessoas vivendo aquilo que você acredita merecer é uma excelente maneira de transformar frustração em projeto de vida completamente saudável.

May — Obsessão Assassina — porque observar de fora aquilo que parece simples para todo mundo pode fazer a normalidade parecer o clube mais exclusivo do planeta.

E, se você quiser permanecer no universo dos demônios entrando em famílias que já tinham problemas suficientes, O Mal que nos Habita oferece outra demonstração elegante de que boas intenções também conseguem alimentar uma catástrofe.

A própria franquia Evil Dead já brincou antes com personagens que chegam ao final carregando mais do que simplesmente a vitória. Mia Allen, de A Morte do Demônio de 2013, aparece entre os nossos sobreviventes que saíram vivos e emocionalmente falecidos. Porque sobreviver é uma coisa. Voltar a funcionar como se nada tivesse acontecido é outra fanfic completamente diferente.

E se você também estiver olhando para o lado errado da porta?

Beth e Ellie passam boa parte do horror separadas por portas, corredores e espaços que deveriam significar casa, mas rapidamente deixam de significar segurança. E existe outra porta atravessando essa leitura inteira: aquela que colocamos entre a nossa vida e a vida que imaginamos que outra pessoa possui.

De um lado está tudo aquilo que conhecemos bem demais. Nossas decisões ruins. Nosso cansaço. Nossas inseguranças. As oportunidades perdidas. Os boletos. Os domingos estranhos. Os pensamentos que não rendem legenda bonita.

Do outro está alguém visto parcialmente.

A comparação adora essa arquitetura.

Ela pega nossa vida em versão bruta, com bastidores, erros, cenas deletadas e áudio vazando, e coloca ao lado do corte final da existência alheia. Depois pede um veredito e finge surpresa quando concluímos que perdemos.

Talvez por isso invejar pessoas próximas seja tão desconfortável. Conhecemos o suficiente para amá-las, mas nunca o suficiente para sentir exatamente o peso que elas carregam. Ainda assim, vez ou outra, olhamos para aquela irmã, amigo, colega ou parente e pensamos que a existência teria sido mais gentil se tivesse distribuído as cartas de outro jeito.

Isso não cancela o amor.

Só destrói aquela fantasia bonitinha de que sentimentos vêm organizados em gavetas separadas.

Você pode amar e ressentir.

Torcer e comparar.

Abraçar alguém enquanto uma parte pequena, inconveniente e perfeitamente humana pensa:

“Eu queria um pouco disso para mim.”

A questão não é fingir que essa parte não existe. Também não é entregar a chave da casa e perguntar se ela gostaria de escolher o quarto.

É perceber quando a comparação começou a escrever uma biografia falsa sobre a pessoa do outro lado da porta.

Porque talvez a inveja mais difícil de matar seja justamente aquela que conhece você pelo nome, te ama de verdade e ainda tem a chave da sua casa.

E você: acha que dá para amar alguém de verdade e ainda sentir inveja da vida que essa pessoa conseguiu ter?

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