Origem Personagens que Grudam Tangina Barrons: todo filme de casa assombrada precisava de alguém com essa confiança
Personagens que Grudam

Tangina Barrons: todo filme de casa assombrada precisava de alguém com essa confiança

Compartilhe esse desconforto
Retrato Cinematográfico de Mulher Elegante Tangina Barrons
Compartilhe esse desconforto

Toda família tem aquela pessoa que é chamada quando ninguém sabe resolver.

A internet caiu?

Chama fulano.

O chuveiro queimou?

Chama fulano.

A televisão começou a conversar com sua filha, o armário virou passagem para outra dimensão e agora existem espíritos atravessando a sala de estar?

Chama Tangina.

É impressionante quanto tempo Poltergeist: O Fenômeno passa tentando administrar o impossível antes de finalmente contratar a única pessoa que entra naquela casa com energia de quem realmente leu a descrição da vaga.

Antes dela, há pesquisadores.

Equipamento.

Hipóteses.

Câmeras.

Expressões preocupadas.

Muita gente formada olhando para objetos voando e tentando manter algum resquício de postura profissional.

Então chega Tangina Barrons.

Ela observa.

Escuta.

Entende o problema.

E começa a dar instruções.

Pronto.

A casa continua um inferno imobiliário, Carol Anne continua em perigo e o além ainda apresenta graves problemas de atendimento ao cliente.

Mas existe uma diferença fundamental:

agora alguém parece saber o que está fazendo.

O catálogo do American Film Institute confirma Tangina como a clarividente trazida pela Dra. Lesh depois que os fenômenos ultrapassam o que sua equipe consegue administrar. É Tangina quem identifica que Carol Anne continua viva e organiza a lógica do resgate. (AFI Catalog)

E talvez nenhum superpoder seja mais atraente num filme de terror do que esse:

competência.

Chamaram os pesquisadores. Deviam ter colocado Tangina no grupo desde o começo

A família Freeling já estava vivendo um pesadelo com acabamento de empreendimento suburbano.

Televisão estranha.

Objetos se movendo.

Árvore homicida.

Quarto infantil com atividades incompatíveis com qualquer norma de condomínio.

Carol Anne desaparecida dentro de uma realidade que aparentemente não aceita reclamação no Procon.

O próprio Terror Chiclete já declarou aquela residência campeã de “7 imóveis do terror com péssima energia, péssima planta e zero paz”, com índice de casa doente de 9,8/10.

Justo.

A casa não tem infiltração.

Tem falha estrutural entre dimensões.

Quando os pesquisadores chegam, existe um conforto momentâneo naquela velha fantasia humana:

agora os adultos especializados vão resolver.

Spoiler administrativo:

não vão.

Eles conseguem registrar fenômenos, entender parte do que está acontecendo e confirmar que aquilo ultrapassa qualquer assombração de entrada de catálogo. O AFI descreve a equipe de Dr. Lesh encontrando múltiplas presenças e, depois, buscando ajuda adicional.

Tangina é essa ajuda adicional.

E há algo delicioso nisso.

Ela não é chamada porque a situação está começando.

É chamada porque o sobrenatural já venceu a primeira equipe técnica.

Basicamente:

nível 1 de suporte não resolveu.

Chamaram supervisão.

Primeira regra: pare de agir como se essa casa tivesse solução no manual do proprietário

Tangina possui uma qualidade preciosa.

Ela não perde tempo tentando encaixar o sobrenatural numa linguagem confortável para os Freelings.

Ninguém precisa ouvir:

“pode ser problema elétrico.”

Meu amor.

A criança está falando através da televisão.

Chegamos algumas estações depois do problema elétrico.

Tangina entra e começa a criar ordem onde só existia fenômeno.

Ela interpreta.

Separa.

Nomeia.

Explica que nem todas as presenças ali são iguais e que existe algo mais perigoso usando Carol Anne e os outros espíritos dentro daquela confusão. O resumo preservado pelo AFI registra justamente essa divisão entre as almas presas e a entidade que Tangina identifica como “a Besta”.

Nomear importa.

Medo sem nome ocupa o cômodo inteiro.

Medo com nome continua horrível, claro, mas pelo menos agora você sabe em qual direção apontar o extintor espiritual.

Esse também é um dos motivos pelos quais casas assombradas funcionam tão bem.

Elas transformam uma coisa abstrata em endereço.

Em O Que Ficou Para Trás, a casa vira uma extensão física da culpa e daquilo que seus moradores carregaram consigo. Já em Poltergeist, o lar suburbano aparentemente perfeito começa a revelar que sua fundação é muito menos inocente do que o gramado gostaria de sugerir.

Tangina não precisa impedir a casa de ser assustadora.

Ela precisa impedir todo mundo de continuar olhando para o problema como se ele fosse apenas uma sucessão de acontecimentos aleatórios.

E faz isso com uma confiança quase ofensiva.

Finalmente alguém nessa casa sabe com quem está falando

Tem um tipo específico de autoridade que depende de volume.

Gente que entra falando alto.

Interrompe.

Ocupa.

Faz pose.

Tangina faz o contrário.

Sua presença vem da certeza.

Zelda Rubinstein aparece creditada pelo AFI como Tangina em Poltergeist e retornaria ao papel em Poltergeist II e Poltergeist III, um bom termômetro de quanto aquela personagem secundária se tornou associada à identidade da franquia. (Filmografia de Zelda Rubinstein no AFI)

Mas o mais interessante não é apenas que ela tenha virado memorável.

É como.

Ela entra num filme que já possui:

uma criança icônica;

uma televisão icônica;

uma casa icônica;

um palhaço que deveria ser destruído preventivamente;

uma árvore com problemas graves de socialização;

um portal sobrenatural.

E mesmo assim arranja espaço.

Isso não acontece porque o roteiro para tudo e coloca uma placa:

AGORA ADMIRE TANGINA.

Acontece porque ela muda a energia das pessoas ao redor.

Antes dela, todos reagem à casa.

Com Tangina, pela primeira vez alguém começa a conduzir a reação.

É uma diferença pequena no papel.

Na tela, é enorme.

Existe até uma leitura interessante sobre Tangina dentro da tradição cultural das médiuns carismáticas do espiritualismo, discutida pelo Horror Homeroom, que aproxima sua autoridade de uma história bem mais longa de mulheres usando a comunicação espiritual como espaço de poder e voz. (Horror Homeroom)

Isso ajuda a explicar por que ela não parece mero “acessório místico”.

Tangina não entra para decorar o sobrenatural.

Entra para operá-lo.

O melhor funcionário sempre é chamado quando a empresa já está pegando fogo

Existe um prazer muito específico em ver alguém competente chegando tarde.

Porque até aquele momento você sofreu junto com todo mundo.

Viu decisão ruim.

Viu tentativa frustrada.

Viu gente encarando fenômeno impossível com a expressão de quem gostaria de consultar um manual que infelizmente não veio na embalagem.

Então aparece alguém falando no imperativo.

Faça isso.

Vá até ali.

Espere.

Chame Carol Anne.

Segure a corda.

Existe um plano.

Meu Deus.

Um plano.

Talvez seja por isso que Tangina produza algo quase contraditório para uma personagem de terror:

alívio.

Ela não faz o sobrenatural desaparecer.

Faz o caos parecer navegável.

Até filmes modernos sobre contato com mortos continuam explorando justamente a força que existe em transformar o além em procedimento. Em Fale Comigo, por exemplo, a juventude encontra regras para permitir que espíritos entrem no corpo e imediatamente faz aquilo que jovens responsáveis fariam:

transforma possessão em entretenimento de festa.

Tem cronômetro.

Tem ritual.

Tem instrução.

Tem absolutamente zero maturidade para lidar com o serviço contratado.

Tangina seria demitida emocionalmente em cinco minutos naquela sala.

A diferença é que, em Poltergeist, conhecimento traz estrutura.

Em Fale Comigo, estrutura dá às pessoas confiança suficiente para fazer uma péssima ideia várias vezes.

O procedimento não salva ninguém sozinho.

Alguém precisa saber por que está fazendo aquilo.

O problema de parecer competente é que todo mundo começa a acreditar em você

E aqui aparece a parte menos engraçada.

Quando você é a pessoa calma dentro de uma crise, sua calma vira empréstimo emocional.

Todo mundo começa a usar um pouco.

A família Freeling não precisa apenas das informações de Tangina.

Precisa acreditar que ela sabe conduzir aquilo.

Diane precisa atravessar literalmente o impossível para buscar a filha.

Steve precisa aceitar instruções que fariam qualquer reunião de pais parecer bastante normal em comparação.

Tangina precisa sustentar a sensação de que existe um caminho.

O AFI registra que ela coordena a tentativa de resgate enquanto Carol Anne é orientada em direção à luz e Diane entra no portal atrás dela.

Isso torna sua confiança mais interessante.

Não é pose.

Tem consequência.

Às vezes liderança não significa ter controle.

Significa impedir que todo mundo desmorone antes de descobrir se existe controle possível.

E a gente ama personagens assim porque reconhece essa necessidade.

No trabalho.

Na família.

Num hospital.

Numa crise.

Sempre aparece aquele momento em que todas as pessoas se olham procurando silenciosamente quem vai dizer:

“certo, é isso que vamos fazer.”

Tangina é essa frase andando pela casa.

Daqui para baixo tem spoiler. A televisão já sabe, mas talvez você não.

Existe uma pequena obra-prima de confiança excessivamente adiantada no fim da participação de Tangina.

Depois do resgate, ela anuncia:

“This house is clean.”

Quatro palavras.

Uma confiança.

Um erro de avaliação que a casa recebe quase como provocação pessoal.

O AFI registra o momento e também o detalhe inconveniente de que, depois disso, o pesadelo recomeça: Robbie é atacado pelo palhaço, Diane enfrenta a Besta, cadáveres emergem do terreno e a família termina fugindo enquanto a casa entra em colapso.

Tangina errou?

Sim.

E isso deixa a personagem pior?

Curiosamente, não.

Até ajuda.

Porque a mulher não vira uma entidade onisciente disfarçada de médium.

Ela consegue interpretar uma parte enorme do problema.

Consegue ajudar a recuperar Carol Anne.

Consegue conduzir a família através do impossível.

Mas aquela casa ainda tinha um rodapé jurídico bastante importante:

o empreendimento foi construído sobre cadáveres que nunca foram removidos.

Talvez o problema estivesse menos para “limpeza espiritual” e mais para “interdição municipal imediata”.

No Terror Chiclete, a casa Freeling já venceu justamente o ranking de imóveis condenados porque transforma o sonho suburbano em uma fraude construída literalmente sobre mortos.

Ou seja:

Tangina limpou a casa.

O lote tinha outros planos.

Casas assombradas adoram gente que acha que entende a casa

Essa é uma das diversões do subgênero.

A casa sempre sabe alguma coisa que o morador ainda não sabe.

Em Os Outros, Grace administra o casarão com uma rigidez quase religiosa: portas, cortinas, silêncio, regras. Tudo parece sob controle até a própria ideia de quem ocupa aquele espaço começar a se desfazer.

Em O Que Ficou Para Trás, Bol tenta organizar e consertar o imóvel como se controlar a parede pudesse controlar aquilo que ela representa.

A casa assombrada ama essa arrogância.

Você chega com chave.

Ela chega com histórico.

Você tem escritura.

Ela tem memória.

Você trouxe sofá.

Ela trouxe mortos.

Tangina é interessante porque não tenta dominar a casa como propriedade.

Ela entra tratando aquilo como território que precisa ser entendido.

Talvez por isso funcione tão bem enquanto os outros ainda estão perguntando “como isso pode acontecer?”.

Tangina já avançou para pergunta útil:

“o que fazemos agora?”

Se Tangina entrou na sala, essas criaturas também alugam espaço

Alguns parentes emocionais dela:

Elise Rainier, de Sobrenatural — outra profissional que entra numa situação em que a família claramente já esgotou todas as soluções disponíveis no mundo material.

Lorraine Warren, de Invocação do Mal — reconhece que algumas casas precisam menos de corretor e mais de alguém disposto a olhar para aquilo que ninguém quer nomear.

Madame Arcati, de Uma Mulher do Outro Mundo — mediunidade com quantidade perigosamente alta de personalidade, porque o além também merece alguém que chegue produzindo evento.

Chris MacNeil, de O Exorcista — não é médium, mas carrega a mesma energia de “parem de discutir teoria e façam alguma coisa pela criança”.

E se o seu negócio é ver pessoas deliberadamente mexendo com aquilo que deveria continuar quieto, a seleção de filmes sobrenaturais para começar curioso e terminar pedindo desculpa ao escuro oferece mais profissionais e amadores tomando decisões espiritualmente questionáveis.

Tangina não rouba a cena. Ela chega para colocar ordem nela

Talvez seja isso que faz Tangina Barrons continuar grudada.

Ela não é uma personagem construída pela quantidade.

É construída pelo impacto.

O filme pode passar muito tempo sem ela porque precisa primeiro fabricar uma ausência.

Ausência de explicação.

Ausência de controle.

Ausência de adulto responsável capaz de olhar para o portal ectoplásmico no teto e não começar imediatamente a reconsiderar todas as decisões que levaram até ali.

Tangina entra ocupando esse espaço.

Ela oferece aquilo que quase nenhum personagem consegue oferecer no meio de um filme de casa assombrada:

direção.

Não segurança.

Não certeza absoluta.

Não invencibilidade.

Direção.

Talvez seja ainda melhor.

Porque confiança de verdade não é entrar num lugar dizendo que nada dará errado.

É entrar quando tudo já deu errado e continuar falando como se alguma coisa ainda pudesse ser feita.

E o público acredita nela.

A família acredita nela.

Por alguns minutos, até a casa parece obrigada a prestar atenção.

Tangina entra tarde em Poltergeist: O Fenômeno porque o filme precisava de tempo para mostrar como todo mundo fica quando a única pessoa competente ainda não chegou.

Tem mais gente problemática esperando julgamento em Personagens que Grudam.

Compartilhe esse desconforto

Agora é a sua vez de piorar essa conversa. Comente👇

Acompanhar a conversa
Quero saber sobre
guest
0 Comentários
mais antigos
Recém-chegados O que mais grudou
Cicatrizes Relacionadas

Tatum Riley: a vítima de Pânico que nunca pareceu vítima

Tatum Riley tinha personalidade, resposta pra tudo e uma inconveniente falta de...

Lipstick-Face Demon: o rosto que Sobrenatural nunca precisou explicar demais

Você provavelmente não sabe quase nada sobre o Lipstick-Face Demon. Talvez nem...

Nubbins Sawyer: quantas red flags cabem dentro de uma van antes de um Massacre começar?

Eles não erraram quando entraram na casa. Também não erraram quando ficaram...

Michael Myers é humano, sobrenatural ou imortal — e por que ninguém consegue enterrar essa resposta

Existe sempre aquele breve momento em que Michael Myers parece morto. Alguém...