Origem Assintomáticos Paimon. Sua família deixou trauma, culpa e um demônio no inventário
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Paimon. Sua família deixou trauma, culpa e um demônio no inventário

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Paimon Hereditário
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A família Graham tinha luto, ressentimento, uma avó com segredos, uma mãe emocionalmente demolida, um filho que gostaria muito de ser deixado em paz e uma menina montando pequenos objetos perturbadores pela casa como se a atmosfera já não estivesse suficientemente estranha.

O que faltava?

Um demônio.

Porque aparentemente Hereditário olhou para o conceito de problema familiar e achou que ainda estava simples demais.

Paimon é uma presença curiosa porque ocupa uma posição enorme dentro do filme sem precisar disputar nossa atenção o tempo inteiro. Ele não tem a desenvoltura de Freddy Krueger, não faz entrada triunfal como Valak, não fica plantado no corredor esperando alguém notar que a iluminação mudou. Durante boa parte de Hereditário, Paimon é menos personagem visível do que estrutura. Está nos preparativos, nas relações, nas pessoas que sabem mais do que deveriam e, principalmente, naquela sensação crescente de que a família Graham continua escolhendo caminhos dentro de uma história cujo destino talvez já estivesse preenchido a caneta.

A própria A24 descreve Hereditário, dirigido por Ari Aster em 2018, como a história de uma família que descobre segredos cada vez mais perturbadores sobre sua ancestralidade enquanto tenta escapar de um destino que parece ter sido herdado. Ou seja: nem a divulgação oficial fingiu que o sobrenome vinha sozinho. Veja a página oficial de Hereditário na A24

O Terror Chiclete já colocou Hereditário entre os filmes para quem herdou mais trauma do que patrimônio porque o filme entende uma coisa inconveniente sobre família: ninguém recebe apenas características bonitas para colocar na árvore genealógica. Às vezes vem junto silêncio, medo, culpa, expectativa, comportamento repetido e uma quantidade considerável de material emocional que alguém deveria ter resolvido três gerações atrás.

No caso dos Graham, veio Paimon também.

O inventário estava caprichado.

Daqui para baixo tem spoiler de Hereditário. Se você continuar e depois reclamar, fale diretamente com sua avó. Parece que ela administra tudo por aqui.

Sua avó deixou alguma coisa para você. Infelizmente.

Quando Ellen morre, Annie não perde apenas a mãe. Ela perde também a última pessoa capaz de explicar uma série de coisas que talvez fosse educado mencionar antes do funeral. O relacionamento das duas já era atravessado por distância, controle, ressentimento e segredos; a morte não encerra essa dinâmica. Pelo contrário. Ellen consegue realizar uma façanha familiar admirável: continuar interferindo na vida dos descendentes mesmo depois de morta.

É aqui que Paimon fica muito mais interessante do que uma entidade acrescentada no terceiro ato para justificar o horror sobrenatural. O que chega àquela família depois da morte de Ellen não é exatamente uma novidade. É uma continuidade. Os Graham acreditam estar atravessando uma sequência de acontecimentos terríveis, enquanto o filme começa lentamente a sugerir que existe método naquela desgraça.

Ari Aster contou à Film Comment que queria construir um filme sobre uma conspiração com o mínimo possível de exposição, espalhando pistas suficientes para que o espectador pudesse montar o quebra-cabeça. Essa escolha explica por que rever Hereditário é uma experiência especialmente ofensiva: na segunda vez, certas coincidências começam a parecer funcionários chegando cedo para organizar um evento que só você não sabia que aconteceria. Leia a entrevista de Ari Aster à Film Comment

A família pensa que está vivendo a história.

Enquanto isso, outra pessoa já reservou o salão.

O figurino de Paimon sempre foi gente

Este é um Dossiê do trauma com figurino, só que Paimon tem a inconveniência estética de não precisar de roupa própria.

Ele veste pessoas.

Charlie existe no centro dessa ideia desde cedo. Peter termina engolido por ela. Entre os dois há uma família inteira sendo conduzida até o ponto em que um corpo específico possa cumprir aquilo que outras pessoas determinaram. O figurino, portanto, deixa de ser máscara, hábito, chapéu ou vestido. Vira corpo humano — e aí a brincadeira fica muito menos confortável.

Existe Paimon fora do cinema. O nome vem de uma tradição demonológica anterior ao filme; uma edição de The Lesser Key of Solomon, hoje disponível no Project Gutenberg, descreve Paimon como um rei e atribui a ele, entre outras coisas, a capacidade de tornar pessoas submissas. Ari Aster também explicou em entrevista que pesquisou demonologia porque não queria simplesmente usar o Diabo e acabou escolhendo Paimon para a história. O filme, claro, constrói sua própria versão cinematográfica sobre esse material. Consulte The Lesser Key of Solomon no Project Gutenberg

E é justamente a submissão que interessa aqui.

Não porque precisemos transformar Hereditário numa aula de grimório para pessoas que vieram ao blog tentando se divertir, mas porque o verbo combina perfeitamente com a ferida do filme.

Submeter.

Fazer alguém ocupar um papel.

Decidir onde um corpo cabe.

Escolher por outra pessoa.

Paimon não precisa apenas de carne. Precisa que a carne disponível pare de pertencer a quem estava usando.

Muito democrático.

O plano já estava acontecendo enquanto todo mundo discutia no jantar

Uma das melhores crueldades de Hereditário é colocar uma conspiração sobrenatural gigantesca ao redor de pessoas ocupadas demais tentando sobreviver umas às outras.

Annie e Peter não conseguem atravessar uma refeição sem transformar a mesa num tribunal. Steve tenta manter a estrutura familiar de pé com a expressão característica de alguém que percebeu tarde demais que “manter a paz” e “resolver o problema” são atividades completamente diferentes. Charlie parece existir alguns centímetros fora daquela família mesmo quando está sentada no meio dela.

Enquanto isso, Paimon pode esperar.

Essa diferença de escala é deliciosa. Os Graham estão discutindo culpa, responsabilidade, rejeição, luto e tudo aquilo que qualquer família emocionalmente congestionada consegue transformar numa arma de uso doméstico. O culto está trabalhando com planejamento de longo prazo.

Aliás, se você quiser avaliar a residência onde tudo isso acontece como se o problema pudesse ser resolvido com imobiliária, o Terror Chiclete já colocou a casa dos Graham entre os imóveis do terror com péssima energia e zero paz. O imóvel pontuou especialmente bem no quesito convivência insalubre. Parabéns aos proprietários.

Mas a casa importa porque Hereditário transforma o espaço doméstico em algo parecido com as miniaturas de Annie. Quartos, corredores e pessoas parecem posicionados dentro de uma composição maior. Muitas vezes, a câmera nos faz observar aquela família quase como se estivéssemos diante de uma maquete.

De longe.

Sem conseguir tocar.

Como se alguém já tivesse decidido onde cada peça ficaria.

Culpa é um excelente corredor para passar coisa ruim

A morte de Charlie rompe a família, mas não cria todos os seus problemas. Ela faz coisa pior: abre cada rachadura que já estava ali.

Peter carrega uma culpa impossível. Annie carrega luto, raiva, culpa materna e uma história familiar que nunca conseguiu organizar. Steve tenta encontrar alguma lógica enquanto a lógica abandona a casa pela saída de emergência.

Isso é importante porque seria muito fácil absolver emocionalmente todo mundo colocando a culpa em Paimon.

Demônio fez.

Fim.

Podemos voltar para casa.

Só que Hereditário não oferece esse conforto. Aster disse que queria fazer um filme sobre sofrimento, luto e trauma e que era importante que a história funcionasse primeiro como drama familiar antes de depender de seus elementos de horror. Essa prioridade aparece no resultado: se retirássemos a conspiração por alguns minutos, aquela família ainda teria material suficiente para estragar várias sessões de terapia.

É também por isso que Hereditário aparece na seleção do Terror Chiclete de filmes para quem não quer susto, quer dano emocional. Antes da entidade, já existe ressentimento. Antes do ritual, já existe culpa. Antes da coroação, existe uma mãe e um filho incapazes de olhar um para o outro sem encontrar os restos daquela noite.

Paimon não precisa fabricar todas as feridas.

Algumas vêm mobiliadas.

A família também passa aquilo que ninguém pediu

Existe um conceito psicológico chamado trauma intergeracional, usado para falar da transmissão dos efeitos ou legados do trauma de uma geração para as seguintes. A American Psychological Association inclui entre as possíveis manifestações dessa transmissão sentimentos como culpa, vergonha, vulnerabilidade, ansiedade e dificuldades relacionais. Isso não significa que Paimon seja uma representação clínica ambulante — seria uma redução bem preguiçosa do filme —, mas ajuda a entender por que a linguagem de Hereditário encontra um nervo tão reconhecível. Veja a definição de trauma intergeracional no dicionário da APA

A gente gosta de imaginar herança como aquilo que alguém conscientemente entrega.

Nem sempre é.

Há coisas transmitidas porque ninguém conseguiu interrompê-las.

Comportamentos.

Medos.

Silêncios.

Formas de amar.

Formas de machucar.

Aquele talento hereditário da família inteira para mudar de assunto justamente quando alguém finalmente chega perto do problema.

No Terror Chiclete, Diana, de Quando as Luzes se Apagam, já aparece por uma ferida parecida: uma presença ligada à mãe acaba atravessando a fronteira e alcançando os filhos. Paimon leva essa lógica para um lugar ainda mais brutal porque a transmissão não é acidente ou vazamento emocional. Existe intenção.

Alguém preparou aquilo.

A avó não deixou apenas consequências.

Deixou instruções.

Ninguém perguntou ao corpo se ele estava disponível

É aqui que Paimon deixa de ser apenas o rei demoníaco elegante que o culto gostaria de receber com uma cerimônia muito organizada e vira algo bem mais desagradável: uma história sobre apropriação.

Charlie não escolhe.

Peter não escolhe.

Annie passa boa parte do filme tentando fazer escolhas dentro de uma situação em que a própria noção de escolha está sendo sabotada.

O corpo vira destino administrativo.

Há algo especialmente perverso nisso porque identidade costuma ser uma das poucas coisas que tratamos como território íntimo. Podemos herdar sobrenome, casa, dívida, nariz do pai e uma tendência questionável a discutir política no Natal. Ainda assim, existe a expectativa básica de que, no final das contas, continuaremos sendo nós mesmos.

Paimon olha para essa expectativa e pede os documentos do imóvel.

Essa relação entre devoção e corpo também conversa com outro texto do Terror Chiclete, sobre Sophia Howard e o momento em que devoção começa a parecer castigo. Nos dois casos, o ritual promete contato com algo maior, mas a conta é paga por gente de carne, medo e desejo.

Divindades e entidades têm uma facilidade impressionante para trabalhar com recursos humanos quando os recursos humanos são literalmente humanos.

Paimon quase não aparece. Esse é justamente o problema.

Valak entra num ambiente e você sabe que Valak entrou.

Pennywise aparece e existe todo um departamento de figurino informando que alguma coisa deu errado.

Paimon tem outra estratégia.

Ele transforma ausência em domínio.

O Terror Chiclete já tratou Valak como uma entidade que usa a própria imagem para corromper autoridade e culpa. Com Paimon, o movimento é quase o oposto. Sua força visual depende menos de uma forma reconhecível e mais das consequências produzidas ao redor dela.

Isso muda nossa relação com o personagem.

Não esperamos Paimon aparecer.

Começamos a procurá-lo retrospectivamente.

Na avó.

Nos símbolos.

Nas pessoas ao redor da família.

Na escolha de Charlie.

Na escolha de Peter.

Nas pequenas coisas que pareciam esquisitas e depois ganham a delicadeza de uma ameaça com documentação em dia.

É o medo retroativo: descobrir que você esteve olhando diretamente para o mecanismo sem perceber que aquilo era uma máquina.

Uma família quebrada faz metade do trabalho sozinha

Talvez a pergunta mais interessante seja também a mais injusta:

quanto daquela tragédia pertence realmente a Paimon?

Porque existe um perigo em dar ao demônio crédito demais.

Ellen manipula.

O culto age.

Joan se aproxima de Annie sabendo muito mais do que demonstra.

Mas os conflitos emocionais dos Graham não são uma invenção sobrenatural colocada dentro da casa para facilitar o roteiro. Annie tinha uma relação difícil com a mãe. A família já conhecia doença, morte, distanciamento e ressentimento. Peter e Annie chegam ao confronto final carregando uma culpa que nenhuma entidade precisaria fabricar.

Paimon encontra uma família vulnerável.

O culto encontra portas.

Ellen deixou as chaves.

Isso não torna os Graham responsáveis pela própria destruição. Torna a situação pior, porque o sofrimento humano existente passa a ser usado como infraestrutura.

É a versão demoníaca daquela pessoa que chega quando você está fragilizado e diz que só quer ajudar.

Excelente.

Ninguém jamais se arrependeu dessa frase em filme de terror.

Outros problemas familiares que também vieram com presença sobrenatural

Diana — Quando as Luzes se Apagam: a entidade que descobre que vínculo materno também pode funcionar como corredor entre gerações.

Valak — Invocação do Mal 2: presença demoníaca com identidade visual tão eficiente que aparentemente o inferno também possui departamento de branding.

Pazuzu — O Exorcista: outro especialista em transformar corpo alheio em território ocupado sem contrato.

O Babadook — O Babadook: quando o sofrimento não vai embora e a solução mais madura disponível é aprender que talvez algumas coisas precisem ser mantidas no porão.

Black Phillip — A Bruxa: porque famílias repressoras também sabem criar excelentes oportunidades de recrutamento para forças bastante suspeitas.

O inventário fecha. A conta, não.

Quando Paimon finalmente vence, existe celebração.

Coroa.

Culto.

Reverência.

Um corpo preparado.

Um plano cumprido.

Para quem organizou tudo, é quase um final feliz.

Esse talvez seja o último insulto de Hereditário.

Nós acompanhamos a destruição de uma família inteira enquanto, em outro nível da narrativa, alguém acompanha a execução bem-sucedida de um projeto.

Annie chama aquilo de vida.

Peter chama aquilo de família.

Charlie talvez nunca tenha tido oportunidade de chamar de alguma coisa.

Para Ellen e seus aliados, era logística.

É por isso que Paimon gruda mesmo aparecendo tão pouco. O medo não está simplesmente na existência de um demônio. Está em perceber que várias pessoas podem construir sua vida ao redor de uma decisão que você nunca tomou — e continuar chamando isso de destino quando finalmente chegar a hora de cobrar.

Algumas famílias deixam casa.

Outras deixam dinheiro.

Algumas deixam culpa suficiente para três gerações, uma dinâmica emocional condenada e aquela caixa de fotografias que ninguém quer abrir.

A família Graham conseguiu acrescentar um rei demoníaco.

Paimon não precisou entrar naquela família. Quando finalmente percebemos que ele chegou, descobrimos que talvez nunca tenha existido uma porta.


Para continuar mastigando essa herança ruim

Se Hereditário grudou pela ideia de coisas que atravessam gerações, continue em 7 filmes de terror para quem herdou mais trauma do que patrimônio.

Se o interesse é entidade usando culpa, fé e símbolo como arma emocional, Valak veio cobrar uma culpa sem recibo.

Se você prefere descobrir que o sofrimento da mãe também pode ganhar pernas e chegar ao quarto dos filhos, temos Diana em Quando as Luzes se Apagam.

E se a ideia é continuar julgando entidades, sobreviventes e pessoas fictícias como se fossem parentes problemáticos, escolha outro Personagem que Gruda.

A terapia ainda não começou.

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Frase destacável para Instagram:
“Algumas famílias deixam casa, dívida e trauma. Os Graham incluíram um demônio no inventário.”

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